quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Literatura do Desprazer

Confesso que quando "descobri" essa literatura -- ou mais especificamente o termo "literatura de desprezer" -- eu fiquei bastante desprazeroso. Ora essa! Eu sou um ser desprezível, amargo, azedo, como um chá de hibisco quente sem nenhuma colher de açúcar e sem boscoitos de leite. Quando li essa expressão pela primeira vez confesso abestalhado que eu fiquei decepcionado! (leiam essa parte como se fossem o saudoso Raul).

Mas, o que é uma "literatura de desprazer"? Assumindo um tom bastante científico e acadêmico -- e bastante infeliz por dizer o óbvio! -- digo que é toda literatura que causa um desprazer ao ser lida -- é nessa hora que vocês me chamam de gênio, Einstein ou qualquer coisa do tipo, mas em tom de ironia. Assumindo um tom bem menos acadêmico -- que neste caso é o melhor! --, é toda a literatura complexa, que fode com o cérebro e faz a mente trabalhar mais. São os clássicos, são os livros mais cabeça -- tipo Neuromancer, Laranja Mecânica, O Silmarillion. São aqueles livros indicados por Pondé, Cortella e Karnal. São todos os livros que não são gostosos de ler. 

A literatura de desprazer entra na contramão da literatura de prazer, que é aquela literatura fácil, mastigada, que pode ser lida em um ou dois dias, é -- e é idiota afirmar isso -- toda literatura que dá prazer -- e aqui vai de Percy Jackson a 50 tons de Liberdade.

E, se eu afirmar que sinto prazer na literatura de desprazer? Talvez não só eu, mas todos vocês a quem vos falo! Porque no fundo essa tal literatura não passa de uma desculpa para incentivar preconceitos contra os clássicos, contra os livros cabeça. É o mesmo que criar a "literatura da burrice", e enquadrar todos os livros que não fundem o cérebro nessa categoria. Tudo isso -- toda a literatura de desprazer e da burrice -- são justificativas para fomentar esses preconceitos baratos e ficar no mesmo mar de mesmice.

Cá estou, tendo o desprazer de ler Ana Karenina. E confesso que é um dos melhores desprazeres que já tive em vida! Leiamos!